Quem mora no interior de qualquer estado sabe que grandes eventos só acontecem mesmo na capital. A previsão era de que ficássemos de quarta-feira a domingo para participarmos de um grande acontecimento na área da educação. Eu, minha amiga Soraya e mais três pessoas de nossa secretaria fomos selecionados. Soraya, empolgadíssima, juntaria trabalho com a possibilidade de matar saudades do amado que residia por lá. Não dava para esconder tanto contentamento. Propagandeava que o indivíduo era isso, era aquilo; afinal, tudo de bom. Romantizou o máximo que pôde a tal criatura. Não tinha homem que fosse páreo para ele. Eu, de muito ouvir falar dele, já idealizava um desses deuses que só se vê nos dramas em filmes de TV’s ou cinema. Quarta-feira chegou. Não sei bem se ela prestou atenção em alguma das palestras do dia. Vez em quando, peguei-a pescoçando para trás, ansiosa pela entrada triunfal de tão aguardada pessoa.

Dizia ela estar ora com calores, ora com mãos geladas. Certo é que estava muito inquieta e alertava: você vai conhecê-lo, vai também gostar dele, é gente fina, um amor de pessoa… Nesse ínterim, foi-me repassado todo o romance dos dois: a paquera, as idas dele para Piripiri, as vindas dela para capital, as dificuldades enfrentadas, os bons momentos compartilhados etc. Eu me teletransportei para este romance. De tanto ouvir o meloso relato, torcia para que este príncipe chegasse logo, tendo em vista que minha amiga logo teria um piripaque se a demora dessa criatura fosse prolongada. Entre uma palestra e outra, eu a acompanhava até fora do auditório para vê-lo chegar e… nada. Ele estava valorizando seu passe. Quando íamos retornar para as palestras da tarde, ei-lo. O encantado resolveu dar o ar da graça. Vinha arrastando os pés. Sorriso forçado, não sei se por timidez ou por algo a esconder. Sorayazinha empalidecera. Fizeram um muxoxo nos cumprimentos. Antes que saíssem, ela o apresentou a mim.
Feitos os cumprimentos, ela se encarregou de puxá-lo para mais intimidade lá fora. A demora foi coisa pouca, muito pouco para mim que esperava grandes arroubos por parte dele também, tendo em vista que ela era todo desejo. Ao voltar e sentar-se ao meu lado, Soraya foi direta: “e aí, ele é ou não é tudo o que eu falei?”. A resposta saíra tão de chofre que praticamente joguei um balde de água fria, muito fria, em minha adolescentizada amiga. Falei-lhe: “ele pode até ser gente boa, mas, não tem fogo nos olhos.” Não quis feri-la intencionalmente. Tentei explicar-lhe a expressão “sem fogo nos olhos” visto que ela não atinou para o significado, no momento: “como assim, fogo nos olhos?” Argumentei que com o tempo que o casal não se via, esse rapaz era para ter chegado devorando-a, primeiramente, com os olhos; o que, infelizmente, não acontecera. Mais tarde, minha iludida amiga descobrira que o seu amado possuía, além dela, mais duas outras namoradas, inclusive tendo tido filho em um dos relacionamentos. Para concluir, se já não demonstrara fogo nos olhos, com o passar do tempo, esse fogo se extinguira completamente, para sorte de Sorayazinha.