O RELÓGIO DA TORRE
A igreja matriz possui um relógio enorme em uma de suas torres que, religiosamente, põe o povo da circunvizinhança a par das horas e é por onde parte da cidade organiza as tarefas do dia a dia. As badaladas das horas e das meias horas, apesar de muito altas, são longas e também suaves. Já se nasce por ali ouvindo isso e a população não quer nem ouvir falar em ficar sem esse doce ruído. Como toda máquina apresenta defeito, com o relógio da torre não poderia ser diferente. Os párocos que passam por essa tranquila cidadezinha tem o maior zelo para que nada danifique esse bem material da população, mas, infelizmente, não é isso que acontece. Um dia, o idolatrado relógio falhou. Pessoas começaram a perder o horário de acordar, crianças chegaram atrasadas na escolas, os feirantes do Mercado Público perdiam seus produtos para venda cedinho, acamados e velhos descontrolaram a medicação… O caos estava instalado.

O relógio da Torre, que era centenário, parou. Que técnico chamar? Um problemão a resolver… As pessoas que presenciaram a instalação do monumental instrumento eram todas falecidas. Antes de sair de casa, o pároco já percebera que o movimento nas calçadas da igreja estava diferente. Era preciso ir ver o que estava causando aquele ajuntamento que só crescia. Se antes eram em torno de sete, oito; agora, ao se aproximar um pouco mais, Pe. Olavo vira que já passavam de vinte. Perguntara, com voz bem firme, o que estava se “assucedendo”. Usou esse termo que ele sabia estar em desuso para se fazer compreender por todos. Quando falava em termos mais modernos percebia que não se fazia compreender por todos. Os presentes se entreolharam e um deles se fez de porta-voz do grupo.
– Padre, a cidade está um caos. Ninguém mais sabe das horas…
– Quer dizer, então, que todo mundo ficou sem relógio, foi?, ironizou.
– Mas, Padre, a gente se orienta pela igreja… Veja o tumulto. Tenha dó…
Pe. Olavo não sabia mesmo o que fazer. Ficou mais alguns instantes, ouviu muitas queixas e resolveu tomar uma atitude. Sairia dali, entraria em contato com a Diocese. Lá, seus pares e, principalmente seu Superior, saberiam o que fazer. Ligou e quem atendeu foi D. Doquinha, que era tão antiga quanto a própria catedral! Conseguiu, após várias repetições, que ela ouvisse seu relato. O telefone emudecera. Pensou em desligar. Melhor, não; pois teria que repetir toda a história para a surda senhorinha.
– Alô!
Reconheceu a voz. Era o próprio Superior.
Repassada a queixa da população, fora garantido que um técnico seria enviado com a máxima brevidade.
Realmente, o problema fora resolvido depois de poucas semanas. O horário das pessoas voltara à normalidade.
Dizem que pessoas também têm preço. Estranha afirmação essa. Em relação a determinados profissionais, o serviço pode ser bem executado ou não. Alguns deles zelam pelo nome; outros, pela recompensa. Daí se tira o resultado do trabalho feito. O bendito relógio da Torre voltou a funcionar por períodos. Praticamente de três em três meses, o técnico era chamado para regular uma peça ou outra do histórico relógio.
Toda igreja sempre tem grande movimentação de crianças, jovens e também idosos, independente de hora. O técnico não permitia que nenhum desses circulantes o acompanhasse. Escondido, antes que o técnico tivesse acesso à Torre, o irrequieto adolescente Naldinho observava todo o procedimento que se resumira em balançar as cordas que faziam a engrenagem funcionar. Três meses depois, a população já se preparava para passar uns dias sem horas. Pe. Olavo ia ter que dar, mais uma vez, justificativas aos fiéis e ter que conversar e convencer o povo da catedral a enviar o habilidoso profissional para que ele liberasse o funcionamento do precioso relógio. Naldinho prontamente se apresentou como Salvador de Relógio, para descrença de todos. Como ele, de fato, aprendera tudo com o tão afamado Botador de Banca que morava no litoral, também não permitiu que ninguém o seguisse. O relógio fielmente voltou a funcionar. Pelo menos, a demora não iria ser tanta. A igreja fez, às escondidas, um novo técnico, profissional esse que faria primeiro seu nome para, em seguida fazer valer seu preço, contanto que os fiéis não mais perdessem as horas por dias a fio.