Noite escura. Silêncio profundo. A casa, que outrora fora cheia de gente, ficou vazia. Restou o cachorro. Não o arrolaram nos bens. Ninguém dera importância a ele. As paredes estão perdendo a pintura. O telhado goteja. As pessoas transitam pelas calçadas sem se darem conta de que ainda há um vivente naquela casa. Até pouco tempo atrás, ele vivia rodeado de gente. Não lhe faltava companhia. Borboleteava aqui e ali. Nada o prendia. O tempo passa rápido demais. Olhando pra ontem, podia ver risos, festas, bebidas, amantes… Um vento, apenas um vento e nada mais existe. As horas, agora, se arrastam lentas. Onde estão as pessoas que diziam amá-lo? A visão se-lhe diminuíra, mas se elas estivessem por perto poderia ouvi-las. Nenhum ruído. Só. Definitivamente, só. Não é permitido andar para trás. E se fosse….? Em que ponto poderia consertar os erros que cometera? Tantos erros…! De que adianta relembrá-los? Nem chorar por eles. Todos que lhe faziam companhia, tinham tomado rumo, estavam bem ou mal acompanhados, mas estavam. E ele?
Sozinho, sozinho. Não late, não morde, não tem gente. Às vezes, geme. Um gemido sofrido vindo do fundo da alma. Dia come, dia não come. Também adoece. Tem febre, delírio, esquece de morrer. Fica curado. É um arrastar lento essa vida… Um dia, ele vai. Ah, com certeza, vai. Talvez, encontrem seu corpo. E será tarde. Tarde pra ter ido. Tarde pra ter ficado. Ficou mesmo para quê? Para sentir remorso pelos amores abandonados? Não. Nunca amara. Era um completo infeliz. Tinha se gastado em um e outro corpo. Nada mais. Compromisso? Abominava esse palavrão. Era livre. Ainda o é, mas feliz nunca, nunca tinha sido. Bebera o que quisera. Andara pelos salões das grandes festas. Esbanjara. Hoje, sujo, sem ânimo e demente, só lhe resta uma saída: esperar o suspiro final. Libertação. Mais tarde, um anúncio, na rádio local relatará: faleceu, ontem, por volta do meio dia, vítima, provavelmente, de ataque cardíaco, Cacau (Francisco Teodoro dos Prazeres). A prefeitura municipal encarregar-se-á de fazer o sepultamento.
Qualquer semelhança com fatos e/ou pessoas terá sido mera coincidência (ou não).
