“O termo francês déjà vu significa “já visto” e diz respeito à sensação subjetiva mas intensa de já se ter presenciado ou vivenciado algo, apesar de sabermos que é a primeira vez que acontece.”
Arquivar em minha memória é garantia certa de que, se não for muito relevante, será direcionado para a pasta de esquecimento. Ocasionalmente, encontro pessoas que estiveram junto a mim em alguma das fases de minha vida. Vez por outra, reencontro ex-alunos que me cumprimentam efusivamente, chamando-me pelo nome “professora”. Para eles, esse nome é comum a todas e serve para nomear quem estava em uma sala de aula desde o maternal até a conclusão de seus estudos. Perde-se a identidade. Somos profissão. Pois bem…!
Tirei o fim de semana para ir à praia. Entre um mergulho e outro, percebi que uma pessoa me observava com indisfarçável curiosidade. Eu já estava ficando sem jeito. Saí da água e comentei com amigos e familiares que me acompanhavam: “tem uma pessoa que não me deixa mergulhar em paz. Não tira os olhos de mim”. Preocupante. Todos quiseram saber detalhes dessa pessoa que m
e importunava. Surgiram admoestações: “não vá mais banhar”, “cuidado”, deve ser alguém perturbado”, “se você perceber algo mais incisivo, denuncie”, “tá armado?”, “preste muito atenção”, “já tá na hora de parar com tanto banho” etc. Como ficar sem ir ao mar, eu estando nele? De jeito nenhum. Continuei minhas puladas de ondinhas. Não sei nadar e nem me aventuro ao desconhecido. Fico sempre pelas margens, nada que ultrapasse a linha da cintura. Deixo os afoitamentos para explorar o território de meu Inventado Amor. De volta à história da praia… já era meio-dia, o sol a pino, muito filtro solar no corpo e, mais uma vez, a criatura a me monitorar. Ela se aprochega e dispara:
– Ei, eu te conheço.
Susto…
Meu Deus! De onde? Tentei de todas as maneiras lembrar de onde essa pessoa poderia me conhecer. Depois de um certo tempo, revendo as pastas de meus falhos arquivos de memória, resolvi entabular conversa com um pálido pedido de desculpa:
– Desculpe-me, mas realmente não lembro.
Para tentar se fazer lembrar, essa pessoa resolvera elencar todo o meu parentesco.
– Você não é a Rita, filha de fulano, irmã de beltrano e já morou em Piracuruca?
Meio sem jeito, assenti e pensei: “realmente, sabe quem sou eu. Não vai me atacar”. Respirei aliviada.
Chegando mais perto de mim, ela soltou o que, desde o início, a motivara ter essa aproximação;
– Estudei contigo. Sou a….. (nome dela). Tu “está” do mesmo jeitinho. Não mudou nada.
Eu não sabia nem o que comentar. Ela prosseguiu:
– Tu já casou?
Respondi:
– Não. Tenho um filho.
Ela considerou a resposta e disse:
– Então… é viúva.
Respondi a minha entrevistadora que não era nem casada nem viúva.
– Sou solteira. E você é casada ou solteira?
Foi quando ela me surpreendeu ao revelar sua frustração com a vida:
– Mulher, eu tenho tanta inveja de quem é solteira ou viúva.
Pasmem!!!!
Em contato com outras pessoas para saber algo a mais sobre minha infortunada amiga de infância, contaram-me que ela vivia confortavelmente e sem apertos financeiros, Casara sim, mas não era feliz no casamento. Continuava mal casada. Tivera filhos que já não moravam com ela. Talvez por isso o apego a todos os bons momentos da infância. Déjà vu para ela. Pasta do esquecimento para mim. Tempo bom para mim é o de hoje. Minha pasta de esquecimento só é acionada quando alguém reaparece do passado e resgata de mim emoções que esfriaram.