O sol já estava a pino, mas Rosa não se dispunha a vestir-se para o trabalho. No primeiro turno, nem cogitou a possibilidade de ir. O marido se levantara cedo, fizera o desjejum apressadamente e somente voltaria quando a noite já tivesse se firmado. Rosa não podia se dar ao luxo de faltar também no turno da tarde. Resolvera, então se dispor a ir. Onze horas. Retirou da geladeira o “R O” (Resto de Ontem). Ligou o micro-ondas e deu uma esquentada na comida, mesmo não tendo nenhum sinal de fome. As crianças estavam com os avós. Resolveram passar uns dias com eles, visto que esse revezamento de casa era uma constante entre esta família. Quando Rosa e o esposo ficavam sozinhos, a liberdade entre eles reinava. Agora, Antônio devia estar “de boas” em seus afazeres, mas ela, coitada, não sabia nem por onde começar. Após beliscar um pouco da refeição, resolveu escolher uma roupa para sair de casa. Melhor seria se ela tivesse uma blusa de manga longa. Não tinha. O que fazer? A roupa também não podia ser de cor escura. Teria que escolher uma bem clarinha para tentar passar despercebida pelos colegas, na sala. Não podia ficar nessas divagações, pois teria que ser uma das primeiras a chegar, sentar-se em seu lugar e somente se levantar depois que todos saíssem. Pronto! Foi encontrada a solução. Teria que se apressar. O machucado doía muito. Bem que o marido tentou levá-la ao hospital para verificar se houvera fratura. O que fora, terminantemente, recusado por ela. Como iria justificar esse machucado? Jamais iria deixar que expusessem história deste tipo por aí; ainda mais ela sendo uma pessoa tão conhecida. A roupa escolhida foi uma t-shirt um pouco mais folgada para ser usada com uma calça legging também clarinha para não chamar muito atenção, visto que havia um pouco de dificuldade de movimentar os braços e esta peça era fácil de vestir e também de ir ao banheiro, caso fosse preciso. Decidiu fazer apenas o costumeiro “banho de asseio”, prática recomendada por sua avó, pessoa não adepta aos banhos de corpo inteiro. Vestiu-se com um pouco de dificuldade. Olhou-se no espelho. Girou o corpo. O machucado era muito visível. As manchas arroxeadas e nos cotovelos e nas costas eram bem aparentes. Pegou o pó compacto e tentou diminuir as marcas de sua peraltice. Realmente foi dado uma clareada. E, se alguém perguntasse a causa de tamanho estrago? Rosa ficou a matutar uma justificativa… A melhor seria era de que escorregara no piso do supermercado que ficava próximo a sua casa. Nem sob tortura revelaria que ela e Antônio, no calor da afobação, tentaram fazer acrobacias na rede. Dessa vez, eles não contavam que o tecido não aguentaria tantas sacudidelas, visto que a rede fora partida ao meio e o casal estatelado ao chão. Risos, risos, muitos risos. A preocupação tomou conta do afobado casal, quando a esposa começou a gemer de dor. Nada tão grave, mas o resultado dessa estultícia ficara mais evidente nela, visto que quem estava na parte de cima era ele.
Advirto-vos, caros(as) leitores(as): na hora de participar de qualquer brincadeira, repare bem e faça valer todas as normas de segurança. Mesmo com todo cuidado, imprevistos acontecem. Quem nunca, né?!