Teresa não conhecia nada do mundo quando teve que deixar sua terra natal e ir fazer a vida nos rincões desse mundo. Aprovada em concurso para professora, chegara o momento de deixar a comodidade da casa dos pais. Não é de bom tom ficar no ninho por tempo indeterminado. Assim como os pássaros, gente também tem que criar asas. Decidida a fazer valer sua maioridade, a moça resolveu mudar-se para uma cidade maior, bem próxima a sua. Para chegar à nova moradia, teria que atravessar duas cidadezinhas menores. Pela janela do ônibus e pelo embaçamento que as lágrimas faziam, Teresa quase não prestava atenção na paisagem do trajeto. Em pouco tempo, chegara à parada final e teve que pegar um táxi que a levaria à casa de um parente, conforme fora combinado. O local de trabalho era bem variado: pessoas amigáveis e outras nem tanto. Era preciso encarar esse desafio. Aos poucos, tudo foi se normalizando. A rotina tomava de conta de seu dia a dia. Sem muito tempo, Teresa foi se adaptando. Tudo parecia diferente. Estar em terras alheias também desperta atenção dos nativos. Teresa era uma moça esguia, cabelos longos e lisos, tez morena e possuidoras de olhos bem observadores. Em uma dessas análises que fazia desse novo ambiente, constatou que algumas pessoas, especificamente mulheres, tinham estatura bem inferior às demais. Em conversa com uma colega de trabalho, descobriu serem essas mulheres todas oriundas de uma mesma localidade. Descobriu também que essas moçoilas aparentavam bem mais idade do que realmente possuíam. Esse fato fê-la lembrar o efeito reverso narrado em um filme que lhe viera à memória. O filme “O Curioso Caso de Benjamin Button”, ambientado em Nova Orleans, 1918, retrata o fato de que Benjamin Button (Brad Pitt) nascera de forma incomum, com a aparência e doenças de uma pessoa em torno dos oitenta anos mesmo sendo um bebê. Ao invés de envelhecer com o passar do tempo, Button rejuvenesce. Era impressionante associar o filme ao fato do envelhecimento precoce de todas as mulherezinhas que circulavam por esta cidade. Ao indagar a origem de todas elas, Ducarmo, sua colega de trabalho, deu-lhe esta justificativa:
– Se admire não, elas são assim mesmo! Quando adolescentes são bem bonitinhas, bem feitinhas de corpo, mas quando passam dos trinta, a gente dá mais de cinquenta para todas elas. Quando você encontrá-las por aí, elas não são daqui não, são da cidade vizinha.
Curiosidade sanada. Fenômeno explicado.
Teresa olhou-se no espelho. Satisfeita com o que via, prometeu não reclamar do que a natureza e/ou genética tinha lhe proporcionado. Afinal cada um(a) “com seu piano a carregar”.