Eu e minha família moramos sempre na cidade. Meus avós e pais sabiam contar como era viver em tempos de pouca chuva, onde a lavoura nada dava e o sertanejo não tinha como fazer a mantença em casa. Contavam eles que foram tempos difíceis. Em determinadas regiões, nada sobrava para alimentar os filhos e os animais. Estes últimos esturricavam expostos no solo árido. O governo pouco fazia para minorar tão grande sofrimento. Nas últimas secas que atingiram nossa região, o que se fazia era migrar de uma região para outra. Levas e levas de gente atravessavam o sertão em busca de sobrevivência. Relatos que a literatura tratou de registrar em obras memoráveis, como: Vidas Secas, de Graciliano Ramos; O Quinze, de Rachel de Queiroz; Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, dentre outras. Não irei me adentrar muito ao falar desse período que castigou o Brasil, notadamente a região nordeste. Quero me reportar ao indivíduo que, vez por outra, aparecia em nossa casa como um exemplo vivo da época em que a fome e a sede assolava e fazia estragos físicos e mentais em quem teimava sobreviver na aridez destes lugares. Vinha esmolambado, trajando farrapos, a pele pardacenta e enrugada pelo causticante sol, a barriga grudada na coluna, munido de várias cabaças pequenas dependuradas (uma delas em forma de cuia a fim de receber algo para lhe saciar a fome durante a caminhada) ou no pescoço ou na cintura e uma infinidade de colares com medalhas de santos em forma de rosários e terços a lhe emoldurar a figura esguia, muito esguia. Trazia como apoio e/ou arma (talvez para afugentar animal ou pessoa que o tentasse) um cajado de madeira, um pouco grosso e barulhento ao tocar o chão. De longe, a criançada da casa ouvia o barulho que a espécie de bengala fazia. Ouvido o barulho, não ficava mais uma criatura fora de casa. Quando a mãe perguntava o que se assucedia; em uníssono, ouvia como resposta que o doido voltara. Era com grande temor que a criançada o recebia. A figura desse sertanejo expulso de suas terras pela sequidão causava terror na meninada. Durante a estadia que durava em torno de três, quatro dias, não se ouvia um pio, meninos e meninas não davam trabalho aos pais e eram, nesse interregno, exemplo de comportamento. No entanto, bastava saber que o sertanejo partira que a molequeira endoidava (hahahahah…) Acabava o sossego da casa. Entre os adultos, o tratamento para com esse retirante era muito respeitoso. Chamavam-no “Seu Zé”; mas, em sua ausência era acrescido Farinha Seca. Zé Farinha Seca, portanto. Minha mãe se sensibilizava muito com a vida nômade desse visitante. Tempos em tempos, ele aparecia e o único alimento que fazia questão de pedir era farinha. Lógico que mamãe acrescia um pouco de tudo o que tínhamos em casa; e, quando ele, novamente, partia, uma trouxinha de comes para a viagem sem rumo era sempre lhe dada. Sr. Zé Farinha Seca fez medo, fez sofrer aos pequeninos, mas sofrimento maior em vida teve ele. Hodiernamente, por aqui, a seca de alimento e água está sob controle. Oxalá que, no reino dos céus, “Seu” Zé Farinha Seca tenha encontrado sossego para o juízo, saciedade para tão grande fome e alento para tão penosa travessia.
FIGURAS EMBLEMÁTICAS – “SEU” ZÉ FARINHA SECA
- Por Grande Piripiri
- Em (A) LETRADO (A), Destaques, Literatura
- 30 de maio de 2025
POR RITA ESCÓRCIO
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