Para não só falar do que acontece na vida alheia, vou ser também personagem do que escrevo. Hoje, tudo tem prazo de validade, inclusive gente. Segundo um amigo, a validade do ser humano gira em torno dos trinta anos, pois até esse limite, a quase totalidade das pessoas não se preocupa em nada com a saúde, joga-se nas aventuras irresponsavelmente e poucos temem a morte. Trata-se, pois, da bela fase da juventude. Após esse período, uma simples dor na unha é por demais preocupante e, se alguém nos conta uma doença, instantaneamente, os sintomas são adquiridos por nós. Bom mesmo era o tempo que ninguém se preocupava com a validade das coisas, objetos e, agora, no caso, documentação. Imagine você, uma certidão de nascimento e/ou casamento ter a validade máxima de noventa dias… É um desaforo! A lei exige atualização de alguns desses documentos não sei mesmo para quê…É exigido que o(a) cidadão (ã) apresente uma segunda via atualizada para se dar continuidade a qual é regularização cadastral. Pois bem. Vamos ao fato. O imbróglio se dá, principalmente, porque as pessoas não residem a vida toda em um mesmo lugar. E quando se precisa atualizar uma documentação, o prazo se torna para ontem. Nem adianta recorrer a celeridade da internet. O ideal é se deslocar até onde fora feito o registro a fim de obter a tão sonhada validade documental. E a história comigo, hein?! …Eu estava com um documento sem validade e o mesmo teria que ser renovado no litoral ou na capital. Optei em ir ao litoral. Lá, fiz a solicitação e, teria que aguardar, no máximo, quarenta e cinco dias, em casa que dista certa de 180 km, até ser chamada para o recebimento. Em menos tempo que isso, recebi, via e-mail, a notificação que o documento estava pronto e que para recebê-lo, eu teria que apresentar comprovante de endereço e um outro documento de identificação com foto. Dois dias antes da data escolhida para ir novamente ao litoral, resolvi arrumar a minha papelada. E quem disse que eu encontrava a bendita identidade? Revirei bolsas, bolsinhas, bolsetas. Nada. Para mim, não é novidade perder objetos, roupas, dinheiro etc. Para aliviar meu desajuste, costumo dizer que o prazer de reencontrar o que fora perdido não tem preço; a sensação é orgástica, maravilhosa! Experimentem a loucura (rsrsrsrs…) Retornemos ao episódio da busca do documento atualizado. Não encontrando a bendita identidade, substituí-a pela CNH (Carteira de Motorista). Em uma das salas da Polícia Federal, sentada estava eu a espera de ser chamada. Um funcionário disse meu nome completo e adentrei na sala. Ao sentar-me para atendimento, reparei uma identidade afixada nos Achados e Perdidos da instituição. Crise de riso. O funcionário deve ter imaginado estar falando com uma desmiolada ou quase isso. Contive a crise de riso e falei:
– Moço, diga que não sou eu a estar dependurada ali, diga.
O senhor levantou-se da cadeira, foi até a foto, olhou-me e disse, também sem conter o riso:
– É a senhora, sim. Pode pegar.
Continuei o diálogo, na maior intimidade com o cidadão da lei:
– O senhor não sabe o trabalho que me economizou. Quase destruí minha casa atrás desse bendito documento. Nunca pensei tê-lo deixado aqui. Imagine a trabalheira que ia me dar ao tirar a segunda via, né?… Eu só não perco aquilo que está pregado. O de resto…
Finalizamos o atendimento com leveza e descontração. Eu estava em êxtase: mais uma coisa achada. Fato este que fez, mais uma vez, cócegas em meu cérebro. Dessa vez, fiz rir também os deuses que nos observam a cometer loucuras, segundo Erasmo de Roterdã, em seu magnífico livro “Elogio da Loucura “. Concluo este fato com esta máxima: “quem não for louco(a) que atire a primeira pedra”.