Foi instantâneo. Assim que se viram, nasceu o interesse de um pelo outro. Um interesse genuíno, mas condenável. Tudo o que ela sempre reprovou foi a união entre pessoas tão diferentes. Desde a mais tenra idade, isso já era tabu. Ela sabia disso ao ouvir conversa de uma tia que morava com ela ao falar dos envolvimentos amorosos da vizinhança. Continua sendo. Também com eles não poderia ser diferente. A Mulher maluca, em sã consciência, jamais ficaria de enlevo com pessoa que não se assemelhasse a ela. Mas o Jovem amante tirou-a do prumo. Dizem que o diabo é audacioso, quando não vem, manda seu representante. E foi no que deu. Ela deixou-se seduzir. Antes, era muito tímida, toda recatada, sem demonstrar grandes arroubos. Pouca liberdade tivera dado a seu corpo e mal conhecera o de um parceiro. Depois de ser seduzida, tudo mudou.
Era puro encantamento. Agora, toda ousadia era pouco. E o danado do Jovem amante sabia prov(oc)ar, sabia endoidar, sabia fazer querer mais. No desenrolar de todo esse quiproquó, ela ficou arreada de paixão. Sua vidinha besta ganhara sentido. E que sentido!… Ela sentia, com muito ardor, que seu corpo necessitava do corpo daquela outra pessoa. Ele, malandramente, fazia com que ela enlouquecesse. Tanto quando estava junto quanto quando se ausentava. Vinte e quatro horas de todos os dias vivendo nesse delírio de tempos felizes. Felicidade alheia incomoda. Muitos se acham no direito de meter o bedelho onde não cabe. “Isso pode”, “isso não pode”: era uma cantilena a perturbar o idílio desses afrontosos enamorados.

A Mulher maluca foi, aos poucos, se deixando guiar pela negatividade dos mal amados e, talvez, recobrado a lucidez, visto que não dava para viver “ad aeternum” essa loucura de amar perdidamente aquela criatura. Era só ela contra os ditames do mundo. Era preciso freio. E foi o que se sucedera. A Mulher maluca afastou-se dele e teve de volta sua vida besta de antes. Quando a encontro, pergunto a ela o que resultou tamanho desatino. A Mulher maluca responde que quantas vidas tivesse e se fosse possível escolher alguém escolheria estar no encaixe com a pessoa que, por linhas tortas, ensinou-lhe o caminho do êxtase, da felicidade.
ad aeternum: locução adverbial – para sempre; que não tem fim; que dura eternamente; de modo eterno; sem fim; infinito; eternamente.
*Qualquer semelhança com a vida real (não) será mera coincidência.