Conheci Lili em plena adolescência. Linda. Todos a admiravam. Como se diz popularmente, ela deve ter passado na fila da beleza várias vezes. Muitos rapazes quiseram enamorá-la. Na mesma cidade, morava João. Ele, gente muito boa, como se diz por aqui. Joãozinho é o ser humano mais delicado da Terra. Bom moço, excelente marido e um pai zeloso de suas crias. Mas de tão bom, esse moço beirava à tolice. Desde idade muito tenra, as pessoas abusavam da generosidade de Joãozinho. E o que se tem em exagero, muitas vezes, deixa de ser valorizado, passa a ser defeito. Infância vivida sem dar trabalho aos pais. Na escola, um exemplo a ser seguido. Em casa, sempre pronto a ajudar na lida diária: fazia compras, dava pequenos recados na vizinhança, deixava a cama arrumada, cumpria suas obrigações dominicais, ia à missa, gostava de rezar; enfim, era elogiado por todos; porém, esse bom garoto tinha um gravíssimo defeito: era excessivamente tímido. A primeira garota que se interessou por ele, levou-o. Lili já tinha beliscado meio mundo quando bateu os olhos em Joãozinho. Era esse. Tinha que ser esse. Conheceram-se no Ensino Médio. Usando de esperteza, ela se colocou na mesma equipe do inexperiente rapaz. Era um tanto se insinuar que já dava na vista. Os outros colegas perceberam a intenção da moçoila. Aos poucos, Lili foi conquistando a confiança do menino. Antes de sair de sua casa, Joãozinho se trancava no banheiro e passava hora e horas a se aprumar, o que causava estranhamento na família. Os pais do mancebo começaram a ficar com “pulgas atrás da orelha”. Eles diziam: “Aí tem coisa”. E tinha mesmo. Em pouco tempo, apareceu uma adolescente procurando pelo filho deles. Era ela, Lili. De colega de sala, Lili passou a dar aulas de chamego ao inexperiente menino. Começou por elogiar-lhe o perfume e pedir para senti-lo mais de perto. Era só ela lhe tocar que os hormônios da adolescência fervilhavam nele. Passou a ter necessidade dessa menina. E como bom aluno em tudo, aceitou ser guiado por ela. Sumia de casa para estar com a namoradinha. No primeiro convite para ir ao quarto dela, recusou. Não saberia se portar, imaginou. Jeitosa como ela era, convenceu-o. Foi bom. Foi maravilhoso. Criou dependência. Meses depois, Lili engrossava a barriga. Não deu outra: estavam grávidos. As famílias providenciaram um casamento relâmpago. O idílio não demorou muito. Lili cansou dessa rotina. Voltou a desejar outros e Joãozinho ornou a cabeça. Dependente dela, cabisbaixo, sem reação, Joãozinho não perdeu as qualidades: antes, bom moço; agora também, bom marido, bom pai. Sabia levar chifres. Não se importava; afinal na cidade em que ele morava era comum isso acontecer. Lili aprontou muito, conheceu muitos amores. Mais de vinte anos juntos, Joãozinho encontrou Alice, uma colega de trabalho. Foi instantâneo. Ela também casada, não se furtou em receber cantadas do, antes, inibido galanteador. Joãozinho pagava Lili com juros e correção monetária os dissabores da relação. Era, agora, um outro homem. Fizera as pazes com o espelho. Ficava horas e horas a se aprumar. No trabalho, era só delicadeza com Alice. Lili fora informada de que o envolvimento estava passando dos limites. Resolvera intervir. Agendou uma reunião com a chefe do setor e expôs todo seu sofrimento e humilhação pelo qual estava passando. Semana seguinte, Joãozinho recebera sua transferência, iria para outro local; mas, em hipótese nenhuma, o romance com a nova amante deixaria de existir, ponderou para si mesmo. Caso ela desistisse, procuraria uma outra; pois, assim como valeu para sua esposa Lili, valeria para ele também a máxima de que “trair e coçar é só começar”. Até hoje, não sabe ele o que fez a esposa renunciar aos desejos pecaminosos. Isso não é assunto de sua alçada; aliás, nunca foi. Talvez o passar da idade ou medo de não ganhar o reino dos céus, talvez… Para que preocupar-se com isso, agora? Joãozinho queria continuar bom moço. Aqueles que o conhecem, veem-no pabular, por toda a cidade, estar vivendo os melhores anos de sua vida. Ama sua esposa como antes e a vida em casa só melhora. Há quem duvide?
JOÃOZINHO E LILI - “As peripécias do Amor”
- Por Grande Piripiri
- Em (A) LETRADO (A), Literatura
- 11 de abril de 2025
POR RITA ESCÓRCIO
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JOÃOZINHO E LILI - “As peripécias do Amor”
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