Na atualíssima obra machadiana (de Machado de Assis), “O alienista”, a loucura é apresentada como uma patologia mental, muito embora os processos, que a identificam dessa maneira, sejam sociais, isto é, os indivíduos que destoam de um comportamento, socialmente instituído, são considerados loucos a saber: o Costa que dividiu a herança em empréstimos, uma prima supersticiosa de Costa, Mateus que admirava a própria casa, Martins Brito como bom orador, o barbeiro Porfírio entre outros.
Em quem Simão Bacamarte punha os olhos, logo encontrava algo no comportamento dessa pessoa para classificá-la como louco(a). A referida obra machadiana, publicada em 1882, pode muito bem representar os dias atuais. Digo isso sem a intenção de julgar quem quer que seja, mas o que vemos só pode ser classificado como loucura. O livre arbítrio está aí mesmo para justificar qualquer atitude do ser humano que se arvora em alterar sua fisionomia e/ou renegar seus traços familiares, as ditas características genéticas. Cada vez mais , as mulheres tornam-se iguais: cabelos, seios, olhos, bocas, dentes etc. são produzidos em consultórios e laboratórios.
A transformação é tanta que já nem nos surpreendemos quando nos deparamos com um de nossos conhecidos que tenha passado pelo processo de transformação, apesar de quase não os reconhecer como também nos deixar indignados. Tempos modernos, esses nossos! De tão modernos, consideramos normal os anormais, ou melhor, quem se mantém preso ao formato trazido preservando seus traços genéticos é que vai nos causar estranheza. Como foi mesmo que conseguiu resistir aos ditames da sociedade? Voltando ao que retrata o final da obra machadiana: resultara para Simão Bacamarte a convicção de ”que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto”.
Então, hoje em dia, renegar e/ou alterar características genéticas passa a ser considerado normal e o anormal será não fazer nenhuma modificação. Caro leitor, torno a repetir: tempos modernos! Portanto, que se continuem as transformações na parte física do ser humano até o dia em que cada um(a) descobrir por si só que o que mantém um corpo bonito é a alma e, se essa não é boa, não tem procedimento estético que resolva.
