COCEIRA MENTAL

POR RITA ESCÓRCIO

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Ah, como foi estranho este termo ser utilizado nos dias de hoje, visto que já era sabido haver coceira em todo lugar do corpo humano, mas mental era realmente uma novidade. Jarbas caiu nas graças da professora Betina. Início de namoro para todo casal segue quase sempre o mesmo ritual. Quem forma um par quer estar na vida do outro o maior tempo possível. Não tem e nem precisa determinar horário. Assim procedia o casal recém-formado. Arranjava-se desculpa para passar na porta da casa um do outro, passar em frente ao trabalho, esbarrar-se pelo centro comercial… A vida adquirira para os enamorados um outro sentido, pelo visto, bem melhor. Dava até gosto ver os pombinhos enamorados, só que tinha um porém: Betina tinha, um vasto currículo amoroso; era, pois uma mulher experiente, sabia sair dos relacionamentos sem apegos. Ela esquecia dos amantes com a maior facilidade. Já o acanhado rapaz era de pouca experiência; pouca paquera e caíra de encantos por esta conquista. Endeusava-a desde que ela lhe dera aulas; agora, mais ainda. Dado o prosseguimento do romance, a mulher achou diferente, por pouco tempo, namorar um jovem que pouco sabia da arte de amar. Envolveu-o num jogo de sedução bem prazeroso para ambos. Jarbas fazia o que e como ela pedia, mas aquilo começara a se tornar cansativo. Essa coisa de estar vinte e quatro horas juntos perdera o interesse dela. Pelo que antes ela costumava fazer, dava para intercalar o namorico com outras aventuras. E assim fora feito. Depois de um certo tempo, como o casal já manifestava os primeiros desgastes, Betina manifestou interesse de ter o namorado nos mesmos moldes do início do namoro. Decisão tardia. Jarbas estava de chamego com uma vizinha e a coisa evoluía. Dizem que a concorrência é o tempero do amor. Pois então… Betina estava caída de amores. Tinha que ter esse amor de volta. Era questão de honra. Quando voltava a estar com Jarbas era toda dengo para com ele, que se mostrava pouco receptivo ou até mesmo alheio. Por mais que ela mostrasse interesse, bom desempenho, ele ficava mais e mais distante. Parecia estar com ela por obrigação.

– Isso não vai ficar assim…, disparava Betina.

Era preciso provocar a mesma coceira do início do namoro nele. De um jeito ou de outro ela iria provocar coceira mental nele. Segundo se explica, coceira mental é quando a mulher deixa marcas em um homem e, a partir de então, não há outro pensamento dele que não seja voltado para a parceira.

Na cidade onde se desenrolava esse romance, vivem pessoas que prometem alterar o andamento do destino: reaproximar e/ou separar casais, retirar ou por mandingas; enfim, fazer trapaças e feitiçarias a um preço bem salgado, ou seja, perder dinheiro ou equilíbrio mental.

Betina procurou o restabelecimento de seu romance através destes charlatães. A ela, fora pedido um roupa do namorado. Fácil. Ela costumava andar na casa da família dele. E, em uma dessas visitas, surrupiou a peça encomendada. Trabalho feito.

Agora, sim, estava do jeito que ela queria: o homem a seus pés. Primeiros dias, uma maravilha! Depois, o apego dele para com ela se tornara excessivo. Dando aula e, para espanto, estava ele, ao longe, observando todos os passos dela! Isso era na rua, em casa e em todo lugar que ela ia. Sufocava. Tentou estabelecer limites. Impossível. Jarbas parecia enlouquecido de amor. Betina resolvera contar sobre a peça furtada. Santo Deus, para que mesmo falar disso?

Foi um transtorno.

Não houve mais diálogo. Ela só ouvia gritos, ofensas, impropérios.

– Quero minha roupa íntima de volta. Quero-a de volta. Vamos lá, nós dois. Você vai dar conta dessa peça ou haverá morte.

Ainda bem que o macumbeiro não dera fim ao reclamado objeto. A peça fora devolvida a seu dono. O que tivera fim mesmo foi o romance que tinha tudo para dar certo até que o tempo mesmo se encarregasse de eliminá-lo.

Betina tratou de provocar coceira mental em outros romances dali por diante. Quem já era acostumada a tocar de parceiro só lamentava a vergonha da devolução da dita peça. No mais, a vida seguiu seu curso normal. E Jarbas? Ele reorganizou seus dias e casou com a vizinha, mesmo sem sentir tanta coceira mental por ela quanto sentira por Betina. Melhor assim.

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