“Então é natal
(Simone)
Então é Natal, e o que você fez?
O ano termina e nasce outra vez
Então é Natal, a festa Cristã
Do velho e do novo
Do amor como um todo
……………………………………..”
Não sei vocês, mas todo Natal, a música que me vem à cabeça para cantarolar é esta que inicia a crônica. Canto toda hora. Se não canto, ela está a martelar meu juízo. É como se o período natalino estivesse a me cobrar lembranças boas. Onde essas recordações estão, meu Deus?! Juro que não as encontro. Natal sugere presente, principalmente para crianças. Como éramos em dez crianças (a última não tinha ainda nascido), ficava difícil celebrar o nascimento de Jesus e, ao mesmo tempo, ter um mimo para receber. Fazer uma criança entender isso é complicado. Toda a meninada do bairro aparecia com um brinquedo após a visita de Papai Noel, na noite de véspera. Meu pai, assalariado, não tinha como fazer esse agrado na reca de gente que ele fizera nascer. Em uma dessas datas de Natal, alquebrado, envergonhado, cabisbaixo, meu pai saíra de casa mais cedo do que o habitual. Era vinte e cinco de dezembro. A meninada de minha casa estava em polvorosa: “papai foi pra rua e vai voltar com presentes”. Era essa a esperança. Meio-dia e… nada. Papai não chegava. Lá pelo fim da tarde, uma figura desponta ao longe. Era ele, sem nada nas mãos. Quando chegou, cheirava a álcool. Meteu as mãos nos bolsos e tirou dali cinco diminutas bonecas (5cm) para as meninas e cinco bombons para os meninos. A alegria foi geral. Ninguém sabia querer luxo devido à pobreza em que vivíamos; apenas desejávamos não ser esquecidos por um ser que passávamos o ano todo a esperar. Papai da Terra, auxiliado pelo Pai Celestial, nunca nos decepcionou. Ele soube nos fazer felizes com o que ele dispunha e nos dava sem limites; nosso presente dele sempre foi amor. A outra história é mais recente. Dezembro, eu, sem dinheiro e com filho pequeno à espera de mimo de Natal, tive que bolar uma estratégia para não deixar passar a data em branco. Comprei uma ficha telefônica e pedi que um amigo ligasse para o meu filho, fingindo ser Papai Noel dando uma justificativa por não passar em nossa casa, neste dia específico. Perto da meia noite, o telefone fixo toca. Deixei que a criança atendesse. Uma voz do outro lado começa a conversar:
– Ho, ho, ho… É você o …….?
– Mamãe, mamãe, Papai Noel….
Feitas as perguntas de praxe. A criança, emocionada, com voz embargada, respondia que tinha sido um bom filho, tinha feito os deveres, estava aprovado na escola…. Papai Noel justificou estar muito atarefado com muitas entregas e o presente de meu filho ficaria para a próxima semana. Pronto. Justificativa aceita. Ligação encerrada; a emoção tomou conta de mãe e filho. Mais uma noite abençoada para nossa história. Difícil foi fazê-lo dormir, depois disso. Nosso Natal foi celebrado. O presente fora entregue com quinze dias de atraso. Rogo a Deus e aos anjos que eles não permitam crianças serem decepcionadas quando estiverem a fazer lembranças para sombrios amanhãs!