GATOS NO TELHADO

POR RITA ESCÓRCIO

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O bar fervilhava de gente, toda noite. Antes, não era assim. De início, Manuel, dono do bar, não atinou para a causa do crescente surgimento da clientela. Aos poucos, porém, ele resolvera analisar o que estava lhe causando o repentino aumento de faturamento. Os frequentadores preferiam sentar-se do lado esquerdo do bar. Chegavam quase sempre por volta das vinte e uma horas. Pediam suas bebidas e ficavam por muito tempo no mais absoluto silêncio. Um cochicho aqui, outro acolá. Entre eles, a conversa era pouca; as gargalhadas, muitas. Como não era possível ficar todo tempo próximo a esses consumidores de álcool, Manuel demorou a entender a razão de tanta euforia com o avançar da noite. Depois de certo tempo, o dono do bar notava que as gargalhadas ficavam incontroláveis. Antes da meia-noite, tudo cessava e os consumidores saíam, repentinamente, quase todos de uma vez. O bar esvaziava. Uma coisa, no entanto, despertou ainda mais a curiosidade do comerciante. Julho é mês de férias escolares. Ao invés da clientela aumentar; acontecia justamente o contrário: pouco movimento, pouca frequência, poucas vendas. O encafifado dono do bar ficou, todas as noites de julho, sem atender a turma que costumeiramente ia em busca de diversão por ali. . A vizinhança também viajava. Ao chegar agosto, os frequentadores, um a um, voltavam. O movimento se restabelecia. As risadas enchiam o ar e o bar de alegria. No encontro dos ponteiros, tudo se dissipava. Tinha que haver alguma explicação para o fato. E ele foi atrás. O intuito era permanecer com a clientela sem quebra de faturamento. Manuel pensou muito em uma solução. Viu que não era o serviço de cozinha, pois há muito tempo quem cuidava desse departamento era a zelosa D. Socorro. Também percebera que não tinha dia certo para a vinda destes frequentadores. Eles vinham em qualquer dia da semana; se bem que em dias de futebol pela TV, as risadas não eram ouvidas. Acredita-se que pela expectativa do resultado, eles focavam a atenção no desempenho de seus times. A solução encontrada era saber através de um deles o que estava acontecendo. Dias se passaram. Manuel abortou esta primeira ideia. Não era possível fazer este tipo de abordagem sob o sério risco de ter prejuízos ao se intrometer em assunto que não lhe dizia respeito. Afinal, teria que manter a discrição, conforme regras preestabelecidas no estatuto dos donos de bares. Faz-se aqui o que se apregoa em confessionário: não sei, não vi, não divulgo. O intrigado Manuel passou a negligenciar outros atendimentos para priorizar a animada turma que comparecia rotineiramente a seu estabelecimento. Passara então a esfregar mais vezes a flanela para enxugar o molhado da bebida na mesa desses frequentadores; vez ou outra, ia ver se o isopor estava com a garrafa de cerveja vazia ou esgueirava-se entre as mesas vizinhas para descobrir o motivo de tantas gargalhadas… De repente, em uma dessas tentativas, ao passar a flanela na mesa, quase tudo silenciara. O que se ouvia eram grunhidos advindos da casa ao lado. Grunhido é um som gutural emitido por animais e, em alguns casos, por seres humanos; comunicação não verbal que pode transmitir diferentes emoções: raiva, medo, dor ou prazer. Manuel apurou as oiças e constatou que o barulho não era produzido pelos animais, no telhado, mas advindo da casa vizinha conjugada à parede do bar. A casa era sua, mas estava alugada há seis meses para um casal cuja esposa era bem jovem e ainda em idade escolar. O aumento da clientela coincidia com a chegada desses inquilinos e o aumento da macharada em seu bar. O barulho era realmente impressionante. O casal, principalmente a fêmea, deixava sarapantado qualquer um que ouvisse sua barulheira. Realmente, o vuco-vuco era espantoso, alarmante e causador das muitas gargalhadas. Disfarçadamente, Manuel bateu em retirada. O que fazer? Seu estabelecimento era familiar. Ele era respeitado na vizinhança. Nunca recebera reclamações. Aquilo realmente passou a lhe inquietar: ou permanecia com os inquilinos e o alto faturamento ou preservava sua reputação de homem honesto e respeitador. A segunda alternativa venceu. Semana seguinte, para decepção dos frequentadores , baixo faturamento e tranquilidade da vizinhança, os inquilinos tiveram que grunhir em outro telhado. Ops, em outra residência!!!!!

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