Não se entristeçam quando eu partir. Todos vão. Cedo ou tarde, vão. Se por acaso, alguém verter alguma lágrima, não será por mim. Deve ser pelo medo de enfrentar o seu dia que, com certeza, virá. Encarem a Morte como uma irmã que nos conduzirá por um caminho completamente desconhecido, inimaginável, que também poderá ser bom, agradável. Por que não? Imagine, caro leitor, se na hora em que chegar lá, encontrar um mundo totalmente diferente desse em que estamos… e bem melhor! Tenho esta esperança. Talvez por pensar assim é que não quero que se entristeçam quando eu me mudar. Quero, agora, contar-lhe, um fato. Morava, ao lado de minha casa, uma octogenária que, ao menor sinal de febre, ficava apavorada e me perguntava, entre amedrontada e também cheia de certeza:
– Será se vou morrer?
Na maior simplicidade e delicadeza, eu respondia:
– Vai, sim. Não sei o dia nem a hora, mas vai morrer, sim. Eu posso ir antes. Isso eu não posso lhe garantir, mas a Morte vem.
Eu não tinha por que lhe negar esta certeza. Tinha? Não tinha. Bom seria se pudéssemos escolher a forma de ir, mas a irmã Morte não apresenta este cardápio a todos. Os mais corajosos (muitos acham que sejam covardes) escolhem quando e como ir. Isso é muito complexo para que eu e você, leitor, cheguemos a uma única conclusão. Não nos cabe, aqui, adentrarmos neste campo filosófico, religioso. Vamos tratar, de agora por diante, de trilhar o restante do percurso que temos a nosso dispor até que sejamos conduzidos para o outro lado. Quem chegar primeiro espera pelos outros que estarão a caminho, visto que a única certeza que temos é a de que os que aqui estão não ficarão no mesmo local de agora. Todos farão a travessia para o outro lado.