Quando o sol baixava, as crianças da casa, saíam para a calçada, para o pátio a fim de descarregar energia acumulada durante o fervor do sol. Pega-pega, amarelinha, triângulo, peteca, o que fosse; a brincadeira era uma certeza. As horas voavam. Quando, finalmente, o sol se punha, era hora de cada um voltar a sua casa e adormecer, em uma rede ou cama e se restabelecer para as aventuras do dia seguinte. Vez por outra, essa rotina era quebrada com o surgimento dela: Madalena. Pobre Madalena! Mulher de vida fácil, em dias de muita dificuldade. Era só ela surgir que a meninada corria de volta para suas casas. As pessoas grandes se encarregavam de implantar o terror através da figura dessa pessoa considerada pequena, visto que seu mister não era bem aceito, pois ela vendia carne, vendia o próprio corpo. Madá trabalhava apenas no horário noturno.
O motivo do susto não era feiura. Não. Ela não era feia, realmente, não era. Era de altura mediana, morena e se vestia com diminutas e gastas peças: microssaia, camisetas coladas, sutiã roto e uma aura de cachaça a lhe envolver todo o corpo. O corpo cambaleante de Madá lhe conduzia a suprir a necessidade de alimentos de toda sua numerosa família. Quanta abnegação e desprendimento! … Santa Madalena. Igual ela, bem poucas. Ela só tinha uma única opção: não deixaria os pais e os irmãos minguarem, desfalecerem de fome como já acontecera com um dos irmãos mais novos que morrera de inanição. Nem todo dia tinha frete para a carroça do pai. Em compensação, se ela saísse para trabalhar, à noite, o básico estaria garantido. O retorno dela era sempre com sol alto. As crianças não a viam, neste horário. E Madalena era tal qual a Geni1, de Chico Buarque2, as duas davam pra qualquer um. Enfatizo, sem ter escolhas, realmente, Geni e Madá davam mesmo pra qualquer um. Várias histórias contadas por uma única versão e com o intuito de amedrontar a meninada e mantê-la sob controle. Pedras jogadas nas duas. Madá não tinha direito de fazer graça.
Ela era quase de graça. As pobres crianças pensavam que a vida fosse fácil para todo mundo, desde que não tivesse nenhuma mulher do tipo de Madá a lhes interromper as brincadeiras. Só mais tarde, quando crescessem, veriam o quão a vida divide o povo e as pessoas fazem parte de um ou outro grupo, quase todas nem sempre de vidas fáceis. Tempos depois, Madalena ficou purulenta. Nunca mais deu para ninguém nem assustou as criancinhas. Assim como na música Geni e o Zepellim3, por aqui também apareceu um Zepelim, só que guiado por um mensageiro dos céus. Este não queria apenas fazer amor com Madalena; tratou de lhe dar asas. Agora, com certeza, Madá mora no céu.
1Geni: personagem da música Geni e o Zepelim.
2Chico Buarque: cantor e compositor brasileiro.
3Zepelim: é um tipo de aeróstato rígido, mais especificamente um dirigível.