Madrugada em minha cidade. Uma mulher geme as dores do parto. Não quis ver quem nasceu. Tão logo escutou o movimento nos corredores do hospital, ela se misturou aos passantes e não fora mais vista. As enfermeiras foram responsáveis em vestir e dar alimento ao pequeno ser que começava sua luta. Sem mãe, sem pai, sem protetores, a criança tinha que lutar ou iria esbarrar no cemitério. Logo se espalhou na cidade que tinha uma criança para dar (ainda não se usava o termo doar). Ducarmo, do pouco que ouviu, condoeu-se da situação do pequenino ser. Ouviu pouco porque era surda. Também falava mal. Então, ela se dirigiu ao hospital. Perguntou se já tinham dado a criança. Resposta negativa. Ela queria. Era dela agora. Um menino para quem já tinha duas meninas. Agradeceu aos céus e levou-o para casa. Deu-lhe o nome de anjo, Rafael. Rafael cresceu. Foi companhia para a mãe Ducarmo, visto que as duas irmãs tinham casado e moravam no sul do país. Por aqui, sempre se diziam que “filho de puta tira a mãe da culpa”. E não é que, crescido, Rafael era cópia fiel de um abastado cidadão que morava entre nós. Morava, pois morreu. Quando vivo, era nojento vê-lo afirmar ser pai de quase cinquenta. Não direi filhos, pois este vínculo só fora com cinco deles gerados com sua esposa, matrimonialmente. Ter filhos é fazer vínculo pela convivência, pela atenção, pelo carinho que se dá a alguém. Isso o bruto do pai de Rafael nunca teve. Para abreviar a história, o dito reprodutor morreu. Pouquíssimas pessoas compareceram ao velório e sepultamento. Dias depois, Rafael caiu doente. Hospitalizaram-no e sem diagnóstico preciso, ele também faleceu. Em conversa com uma senhora que conhecia a história dos dois, ela deu-me uma justificativa para a morte do pobre rapaz: um dos filhos daquele maldito tinha que morrer mesmo, para que ele não sossegue e carregue-o nas costas, lá no lugar onde ele estiver, pois quem aqui não serviu para amar que sua pena seja carregar todos os que ele gerou até pagar os pecados de não tê-los alimentado nem amado quando aqui estava. Rafael foi o primeiro, mas todos serão colocados nos ombros daquele infeliz, lá no outro mundo. A pobre Ducarmo perdeu quem lhe fazia companhia. Rafael, durante toda a vida, foi bom filho para quem a vida substituiu e não é justo para com ele a pena de açoitar o seu reprodutor no outro mundo. Rezemos para que sua alma mereça outro destino que não seja um encontro com o traste que lhe deu a vida.
O DESTINO DE RAFAEL
- Por Grande Piripiri
- Em (A) LETRADO (A), Destaques
- 16 de maio de 2025
POR RITA ESCÓRCIO
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