Quinta-feira. Vinte e trinta horas. Um calor infernal lá fora. Dentro do quarto, um convite tentador para começar a dormir logo. Assim o fiz. O cansaço fez com que eu adormecesse logo. No entanto, o celular ligado faz com que eu desperte algumas vezes durante o sono. Lá pelas tantas, o som de mensagem chegando fez com que eu despertasse e visse a urgência enviada. Pelo visor, constatei que não era pessoa de meu contato diário, visto que não estava identificado pelo nome e também não reconheci de imediato pela foto. Dizem que a curiosidade matou o gato. Então, não me contive. Resolvi ver quem era o atrevido a me tirar dos braços de Morfeu. Visualizei dois recados: um vídeo e um áudio. No vídeo do Tik tok, uma bela moça se dirigia a um suposto amor solicitando um tempo para conversa sobre coisas especiais. Ela reclamava da falta de tempo do suposto ouvinte, dizia que o lindo andava sumidinho e essas palavras melosas típicas de quem quer conseguir algo a mais que não seja o simples matar a saudade. Com voz bastante sedutora, pedia que o amado não desaparecesse, inclusive adiantara que o contato ´poderia ser estendido, via whatsapp. Finalizada a primeira mensagem. Já um pouco irritada por ter acordado para ver uma coisa nada interessante, eis que o áudio me surpreendeu deverasmente. A voz era de um idoso que respondia aos apelos da jovem sedutora do Tik tok. Acredito que pelo som do áudio, o idoso tenha se afastado dos demais moradores de sua casa, pois o volume máximo do aparelho celular quase tornava inaudível o que ele enviava como retorno à queixosa moça do Tik tok, além do fundo musical orquestrado por chocalhos de bodes, bois e também o cri cri cri ,de grilos. A história me caíra às mãos de maneira inesperada. Com o desenrolar do áudio, constatei conhecer um dos personagens e saber que ele morava na zona rural de nosso município. A partir de então, atentei bem para o recado que estava sendo enviado. Primeiramente, o velho galanteador fizera cumprimento de praxe entre prováveis amantes.
– Ei, amor! Tudo bem com você, aí? Espero que você esteja bem, gatinha. Você é linda, meu amor, vem morar comigo. Tô a fim de arrumar uma muié pa mim, trabalhadeira, uma mulher que me respeite, que tenha amor a eu. Tá bom, tá bo
m? Pode me procurar na cidade Piipii- Piauí. Quando você chegá lá, pode avisar, na rádio que eu vou lhe pegá lá…Tá bom, gatona linda? Te amo, te amo te amo…
Meu sono foi para o beleléu. Crise de riso. Como é que o Sr. João Silva diz precisar de uma mulher em casa que seja trabalhadeira quando tem D. Candinha, um amor de pessoa que não cessa de trabalhar, mal o sol nasce até ele se pôr? E ainda o mais grave: fornecer dados pessoais, via redes sociais. Quando a família se der conta das peraltices de Sr. João, ele já terá perdido todas as economias, várias parcelas da aposentação do INSS (via parcelamento de empréstimo) e até mesmo os fundos da calça, como se diz popularmente por estas bandas. Desse amor, infelizmente, restará ao iludido idoso e familiares muita, muita dor de cabeça.
Perdi o sono. Ganhei a história.