UM MOTIVO PARA VIVER

POR RITA ESCÓRCIO

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Sentadas, à beira da calçada, cada uma em sua casa, duas senhorinhas de quase cento e sessenta anos, o somatório das duas idades, parece ser o retrato perfeito e singelo do fim dos anos para qualquer um(a) que queira viver tanto. Eu disse parece. Só parece. Quem convive com idosos sabe muito bem como são teimosos, nada os demove de uma ideia. Geralmente, quem é mais jovem tem que ceder ou fazer vista grossa para não entrar em atrito com eles. Pois bem, vamos retornar à cena angelical das duas idosinhas vendo a vida passar ao largo de suas calçadas. De nomes Santa e Divina, mas com essas qualidades, infelizmente, nenhuma tinha. Desde muito novas, a família apartava-lhes as contendas. Para melhor entendimento, irei contar-lhe, meu caro leitor, apenas dois episódios passados entre elas. Que as duas eram diferentes em tudo, todos sabiam. Santa era urbana, sem estudo, pavio curto e com vasta experiência amorosa. A outra, Divina, era rural, concluiu o Ensino Médio, ministrava aulas e nunca, nunca teve uma experiência amorosa mais completa; teve paqueras que não evoluíram nem para namoro. Certa vez, em uma foto de família, somente Santa ficou dentro do muro feito de tubos de aço (metalon) e as demais pessoas eram vistas fora do portão. Em tempos de fotografias reveladas, os ditos retratos passavam de mão em mão. O retratista, “Seu” João Roque se encarregava de entregar as preciosidades de cada fotografado em casa a fim de receber o pagamento pelo feito. Vizinhas que eram, elas sabiam de tudo uma da outra. Quando o fotógrafo chegou e fez a entrega, Divina, espontaneamente, fez o seguinte comentário:
– Santa está na cadeia e nós fomos visitá-la.
Sala cheia de parentes, a gargalhada foi geral. O estopim de mais uma bomba fora acionado. A intriga foi formalizada. Ninguém mais teve paz. A briga, acirrada. Divina ficou com medo de ser atacada pela vizinha. Passou dias e meses precavida temendo o ataque. Santa armou-se de uma tesoura e a atacou. Para sorte de todos, um parente salvou Divina da morte iminente. Mas, nem sempre era tempo de contendas. Elas tiveram períodos de paz não duradouros. Nesses tempos, a presença de Santa sufocava. Era um querer estar perto da outra sem motivo. Tomava-lhe a atenção de suas visitas, infiltrava-se na camarinha, na cozinha, enfim a presença dela era muito invasiva. Divina sentia falta do afastamento. Era preciso provocá-lo para tempo de recolhimento..
A última desavença acontecera há poucos dias. Divina armou-se de coragem para um ajuste de contas e ficou a esperar por muito tempo que a boateira regressasse do culto dominical, à noite. Divina queria por que queria saber se ela seria mulher suficiente para repetir um falso levantado contra ela, visto que duas pessoas já lhe tinham repassado que a inimiga declarada Santa estava espalhando entre seus amigos que a mesma era macho e fêmea, ou seja, tinha costume de namorar também alguém do mesmo sexo; o mais agravante, ainda, era que a sua rival possuía os dois sexos. Grande indignação!!!! Ofensa essa insuportável para uma octogenária. Os parentes foram alertados e tentavam acalmar a ofendida, mais uma vez, até a próxima contenda. Não sabe a ofendida senhora que, nos dias de hoje, não precisa ser confirmada essa anomalia para que se possa amar pessoas independentemente do sexo de cada ser. Os tempos são outros, como dizia minha falecida avó. Acostumemo-nos a eles. Em relação às idosinhas, motivos para se odiarem não faltarão. Talvez seja esta a causa de suas longevidades. Encontre o seu motivo. Oxalá que seja amor.

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